Especialistas orientam famílias sobre sinais no desenvolvimento infantil que merecem atenção e reforçam que observar mudanças não significa antecipar diagnósticos
Uma criança que demora mais para falar. Outra que começa a apresentar dificuldades na escola. Há ainda aquela que não tolera determinados sons, texturas ou mudanças na rotina, tem crises frequentes ou encontra dificuldade para interagir com outras crianças. Para muitas famílias, principalmente aquelas que estão começando a percorrer a jornada do desenvolvimento atípico, uma das perguntas mais difíceis é: quando é apenas uma característica daquela criança e quando é hora de procurar ajuda profissional?
A resposta não está em um comportamento isolado. Mudanças persistentes na comunicação, aprendizagem, interação, alimentação, autonomia, comportamento ou participação nas atividades cotidianas podem ter diferentes causas. Por isso, a orientação é observar não apenas o que acontece, mas com que frequência ocorre, em quais ambientes aparece e quanto aquela dificuldade interfere na vida da criança e da família.
Para Valéria, responsável técnica do Espaço Multidisciplinar Colorir, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, olhar para a criança de maneira ampla é o primeiro passo. “Um comportamento isolado não determina um diagnóstico. O que precisa chamar a atenção da família é quando aquela dificuldade se torna frequente e começa a interferir na comunicação, na autonomia, na aprendizagem, nas relações ou na participação da criança nas atividades do dia a dia. Nesse momento, procurar orientação profissional pode ajudar a compreender o que está acontecendo e quais caminhos fazem sentido para aquela criança”, explica a especialista.
Mas nem sempre a primeira mudança é percebida dentro de casa. Muitas vezes, é na escola que determinados sinais ficam mais evidentes. Dificuldade persistente para acompanhar atividades, compreender instruções, organizar tarefas, manter a atenção ou interagir com os colegas pode levar professores e responsáveis a perceber que a criança necessita de um olhar mais cuidadoso.
O mesmo acontece com situações que, isoladamente, podem fazer parte da infância, como inquietação, seletividade alimentar, resistência a mudanças ou sensibilidade a sons, roupas e texturas. A diferença está na intensidade, na frequência e, principalmente, no impacto dessas características na rotina.
Por isso, família e escola podem funcionar como importantes pontos de observação. Registrar situações que se repetem, mudanças recentes e ambientes nos quais as dificuldades aparecem fornece informações importantes quando há necessidade de avaliação profissional.
Avaliar não significa rotular
O debate sobre identificação precoce ganhou espaço também no Congresso Nacional. Em abril deste ano, a Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou uma proposta que estabelece diretrizes para identificação precoce de sinais do Transtorno do Espectro Autista (TEA), com previsão de encaminhamento para avaliação multiprofissional quando forem identificados sinais de risco. O projeto permanece em tramitação na Câmara, mas sem previsão de votação.
Os dados do Censo 2022 também dimensionam a presença do autismo nas famílias brasileiras. Pela primeira vez, o IBGE investigou o diagnóstico de TEA e identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil. A maior proporção foi observada justamente entre crianças de 5 a 9 anos: 2,6%. Entre os meninos dessa faixa etária, o percentual chegou a 3,8%; entre as meninas, a 1,3%.
Os números, entretanto, não significam que atraso na fala, dificuldade escolar, seletividade alimentar, inquietação ou sensibilidade sensorial sejam, necessariamente, sinais de autismo. Comportamentos semelhantes podem ter origens diferentes, e somente uma avaliação adequada pode contribuir para compreender cada situação. “A avaliação não deve começar pela busca de um rótulo. Ela começa pela tentativa de compreender aquela criança: sua história, suas habilidades, suas dificuldades, sua rotina e os contextos em que os sinais aparecem. Duas crianças podem apresentar comportamentos parecidos e precisar de caminhos completamente diferentes. É por isso que o cuidado individualizado é tão importante”, disse Valéria.
O desafio das famílias atípicas
Para quem recebe um diagnóstico ou mesmo começa a investigar uma possível neurodivergência, outra dificuldade costuma surgir: por onde começar?
Consultas, relatórios, escola, terapias, convênios e diferentes especialidades passam a fazer parte de uma rotina que pode ser nova para toda a família. É nesse contexto que a integração entre profissionais ganha importância.
O Espaço Multidisciplinar Colorir, em Paulista, nasceu em outubro de 2025 com a proposta de oferecer atendimento especializado a crianças e adolescentes neurodivergentes a partir de um cuidado técnico, humanizado e integrado. A estrutura reúne diferentes áreas terapêuticas, entre elas Terapia Ocupacional com integração sensorial, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Nutrição, Psicomotricidade, Psicopedagogia, Psicologia, Musicoterapia, Terapia Aquática e ABA, de acordo com as necessidades de cada acompanhamento.
Entre os diferenciais definidos pela própria instituição estão o planejamento terapêutico integrado, protocolo de avaliação, atendimento humanizado, ética profissional e redução do tempo de espera.
Para Leonardo Félix, diretor do Espaço Multidisciplinar Colorir, a experiência das famílias ajudou a definir a proposta do espaço. “Quando uma família começa nesta jornada, muitas vezes ela recebe uma quantidade enorme de informações, encaminhamentos e demandas ao mesmo tempo. A Colorir nasceu da percepção de que não basta oferecer diferentes terapias dentro do mesmo espaço. É preciso que exista diálogo entre os profissionais, acolhimento à família e um planejamento que enxergue aquela criança de forma integral”, disse.
Leonardo ressalta ainda que o papel da família não é identificar transtornos por conta própria, mas estar atenta às mudanças e buscar orientação quando necessário. “Queremos contribuir também para que as famílias tenham acesso à informação de qualidade. Procurar ajuda não significa procurar um diagnóstico a qualquer custo. Significa entender melhor o desenvolvimento da criança e, quando necessário, encontrar profissionais capazes de orientar os próximos passos com responsabilidade e respeito.”
Quando buscar orientação?
Não existe uma regra única, mas alguns cenários podem justificar uma conversa com o pediatra ou com profissionais habilitados, especialmente quando são persistentes ou passam a prejudicar a rotina da criança:
- perda ou dificuldade importante em habilidades de comunicação;
- dificuldades persistentes de interação e participação social;
- mudanças significativas no comportamento;
- dificuldade recorrente de acompanhar atividades escolares;
- sensibilidades que comprometem atividades cotidianas;
- seletividade alimentar com impacto relevante na rotina ou saúde;
- dificuldade importante de adaptação a ambientes e mudanças;
- perda de habilidades que a criança já havia adquirido;
- prejuízos perceptíveis à autonomia e às atividades do dia a dia.
O principal cuidado é evitar comparações e diagnósticos feitos a partir de vídeos, conteúdos de redes sociais ou experiências de outras famílias.
Cada desenvolvimento possui uma trajetória própria. Quando algo começa a gerar sofrimento, limitar experiências ou comprometer atividades importantes, buscar orientação pode ser menos sobre encontrar um nome para aquela dificuldade e mais sobre descobrir como ajudar aquela criança a se desenvolver melhor.
Sobre o Espaço Multidisciplinar Colorir
O Espaço Multidisciplinar Colorir atua no atendimento especializado de crianças e adolescentes neurodivergentes, reunindo diferentes especialidades terapêuticas em uma proposta de cuidado integrado. A atuação é orientada por princípios de acolhimento, ética, desenvolvimento integral e atendimento humanizado.
